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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Achadinhos lolitas

 Que eu sou a autodominada rainha dos achadinhos, isso eu sou mesmo. Mas eu não me tornei essa “rainha” do nada: quebrei muito a cara, esperei muito e também dei sorte, porque afinal bons achadinhos são sobre isso: sorte.

Pensando em como posso ajudar a disseminar a procura dos achadinhos, resolvi criar esse post em que vou dar dicas de onde achar peças lolitas, off brands e adaptáveis para a moda. Lembrando que achadinhos levam tempo, então não vá achando que vai seguir todas essas dicas e já sair com 20 peças de brand por 30 reais. Vamos ser realistas e colocar os nossos pés bem firmes no chão!

1 – Comunidade

Se tem algo que eu repito para toda novata é: “faça parte da sua comunidade local, crie ligações e relações”. A vida lolita fica muito mais fácil quando temos isso.

“Ah Tay, mas o que tem a ver relações com achar peças baratas?”

Calma, minha pequena padawan baixa renda.

Muitos achados que tive foram através da minha comunidade local: em swaps meets, da amiga da conhecida querendo vender algo ou até de um conhecido que viu algo que sabia que eu ia curtir e me enviou.

Esse outfit, por exemplo:



Essa salopette da AP, se não me engano, não paguei mais de 150 reais nela, e a blouse acredito que tenha sido uns 30/50. Anos depois eu consegui a meia desse conjunto por 25 reais, e tudo isso dentro da minha comunidade.

Mas só um aviso: não seja a chata que só quer ficar perto para ser “urubu de guarda-roupa”. Crie laços verdadeiros e lembre que esses achados são consequências muito boas desses laços.

2 – Enjoei/OLX/Mercado Livre

Sim, tem muita coisa boa nesses sites e você pode acabar dando muita sorte, como por exemplo eu com essa blouse aqui:



“Mas Tay, como faço pra achar?”

Minha dica maior é procurar por palavras-chave como lolita, egl, fofo, kawaii, nomes de marcas e peças como headdress. Vale jogar no Google até mesmo, por exemplo, “Bodyline jsk + Enjoei”. E aqui vai a dica de ouro: mesmo que mostre que a peça já foi vendida, vá até o perfil do vendedor e revire tanto o que já está à venda, os comentários, os yeyezados, quem ele segue e quem é seguido por ele.

“Ah, mas dá muito trabalho.”

Ou você quer achados ou você não quer ter trabalho — os dois não rola.

3 – Marketplace do Facebook

Esse aqui é digno de estar sempre de olho, pois você nunca sabe quando vai aparecer algo. Eu consegui 6 Gothic & Lolita Bibles por 50 reais no Marketplace do Facebook.

Tenha palavras-chave já salvas na pesquisa, como “salto plataforma”. Às vezes aparecem coisas muito interessantes e lolitáveis.

Ah, importante: nem perca tempo colocando lolita na busca, pois o Face não vai aceitar. Busque por palavras mais gerais e também por nome de marca.

Mas aqui é mais fácil você achar coisas lolitaveis.

4 – Bazares/Swaps meet

Esses lugares são excelentes para fazer negócio, inclusive saudades de Heidi e seus swaps meets.

Swaps meets são maravilhosos, pois são meets focados em venda e troca. Muitas vezes você pode experimentar a peça, fazer parcelamento e, enfim, é magnífico.

5 – Shopee

Mesmo caso dos outros sites, mas ele tem um pulo a mais. Como queremos achadinhos em que vamos pagar pouco, quando você fizer a busca lá por “jsk lolita”, você vai colocar apenas para ver as vendas do território nacional. Assim você já vê páginas de lolitas que estão vendendo suas peças lá. Mas, assim como os outros, precisa procurar bastante.

6 – Grupos de vendas no Whats

Já comprei um RHS por 85 reais, então sim, vale muito entrar nesses grupos.

Mas aqui a dica é diferente: você tem que estar atenta, com notificações ativadas e ser rápida! Todas querem um achadinho, então você tem que estar ligada — senão você perde.

Bom, gente, é isso. Espero que ajude vocês a também fazerem parte desse meu reino dos achadinhos.

E lembrem-se: lolita é questão de tempo e paciência. Nem sempre você vai chegar primeiro ou ter dinheiro para aquela pechincha maravilhosa… e tá tudo bem. Vida segue, e outros achadinhos virão.

domingo, 2 de março de 2025

Dinossaulita

 


No dia 1º/03/25 tivemos um meet/aniversário surpresa da Mira na confeitaria D’Jucas. Foi um meet maravilhoso, apesar do calor descomunal que fez. Sério, o calor estava grosseiro e passando dos limites do aceitável!
Dessa vez, não lembrei de tirar fotos das comidas. Estava muito nervosa com a surpresa para minha Mira, mas, como sempre, o pessoal da D’Jucas arrasou! Estava tudo muito delicioso, bem feito, com preço justíssimo e um atendimento que me fez sair de lá me sentindo uma princesa! O atendimento, desde o WhatsApp, quando encomendei o bolo, até nossa chegada, eles apoiando na surpresa e cantando parabéns conosco... foi perfeito. Como o espaço é pequeno, mas muito lindo, e estávamos só nós, era como se tivéssemos reservado a confeitaria toda só para o meet.
Definitivamente, um meet que vai ficar para a história dos meets da comunidade Bonde do Babado.

Mas o que tem a ver dinossauros e lolita?
Bom, durante o meet, nós começamos a falar sobre coisas como “ah, esse vídeo eu assistia quando mais nova e isso foi há 10 anos atrás”, até que uma das meninas comentou sobre o fato de eu e a Mira, minha afilhada lolita, sermos as mais velhas do grupo e da moda no meet. Mas então veio a maior das informações: Mira me lembrou que conversamos desde que ela tinha 15/16 anos. Foi aí que notei o que aconteceu... eu virei uma dinossaulita.

Dinossaulita? Bom, como o nome sugere, é uma pessoa que está há muito tempo dentro da moda lolita e, geralmente, a pessoa mais velha dentro da própria comunidade. No meu caso, da Mira, Aria, João, e uma menção honrosa à nossa eterna lolita porto-alegrense Heidi.

Foi ao mesmo tempo bom e estranho notar que, depois de tantas pessoas da mesma época que eu entrarem e saírem da comunidade, eu fiquei e me tornei aquilo que a Tay de 15 anos, com um vestido meia-boca de guro lolita e que sofreu para entrar na moda por conta do orçamento mínimo, sempre sonhou em ser. Me senti meio Meredith Grey, notando que, de todos os internos que entraram com ela no Seattle Grace, somente ela sobrou. É um gosto amargo, em partes, mas ao mesmo tempo tem um sentimento de "ok, finalmente cheguei onde sempre sonhei".


Não vou negar que bateu o sentimento pesado de “estou ficando velha”, e bateu forte esse sentimento. Aquela sensação de que talvez esteja na hora de não usar mais a moda e de que será que ainda tenho idade para continuar usando laços e tons pastéis… Afinal, a casa dos 30 tá chegando esse ano.
Acredito que esse sentimento seja muito comum entre mulheres. A nós foi negado seguir nossos hobbies quando crescemos, e somos cobradas para sermos uma figura matrona girl boss... Enfim, divagações de uma alma que está velha demais para ser jovem e jovem demais para ser velha, mas nem tanto assim.

A verdade é que realizar os sonhos da Tay de 15, 12, 10, 5 anos... tem feito minha alegria adulta atualmente.

 


 

domingo, 18 de agosto de 2024

Moda lolita, periferia e ocupação de lugares

Breakbot "2GOOD4ME"

A moda lolita é uma forma de pessoas pobres e periféricas ocuparem espaços que geralmente não teriam acesso.

Estou há 13 anos na moda lolita e sou uma pessoa que mora na periferia de Porto Alegre/RS. Falo isso pra vocês entenderem que tenho vivência do tema abordado.

Sou filha, com orgulho, de uma pessoa que sempre trabalhou como empregada doméstica. Hoje, sou professora e, tal qual muitas pessoas pobres, a docência foi um meio de ascensão social e financeira. 

Mas okay, como cheguei nessa conclusão?

Foi a partir de uma conversa com uma amiga extremamente querida pra mim, a Annah Hel, em que confessei pra ela o quanto me sentia deslocada em relação a comunidade de moda lolita nacional por conta do padrão de consumo de algumas pessoas. Vendo tantos vídeos e posts sobre recebimento de encomendas, unboxings e reviews, me sentia sobrecarregada.

Em geral, a moda EGL é um estilo usado por mulheres adultas assalariadas. Há uma relação entre independência financeira e a possibilidade de perseguir hobbies. Por que isso? Bom, nós vivemos sob um modelo econômico capitalista, em que a tendência é que tudo seja mercadoria ou objeto de consumo; em que a lógica mercantil tende a ocupar todos os espaços de socialização, lazer e entretenimento. Por exemplo, cinemas são empresas e as decisões tomadas nesse setor visam antes o lucro dos donos do cinema do que coisas como acessibilidade e arte. “Não faça perguntas, apenas consuma o produto e, então, fique empolgada pelo próximo produto” é a ordem do dia.

Nesse sentido, a moda lolita e outros estilos alternativos também se tornam objetos de consumo. Eles serão descritos como “um luxo”, inclusive por muitas participantes do estilo, e existirá um incentivo onipresente para se comprar mais e mais. As pessoas se tornam propagandas ambulantes de inúmeras empresas.

Porém, esse grupo de pessoas que gostam de EGL não é uniforme. Questões como qual é a profissão dessa pessoa e o cargo que ela ocupa, se ela é a principal responsável pelo sustento da casa, se mora sozinha, se tem filhos, cidade e estado em que mora, acrescentam asteriscos à independência financeira da pessoa. Isso irá influenciar os hábitos de consumo dela, como ela engaja com a tendência mercantil do lazer. Dependendo do lugar sócio econômico onde cada pessoa existe, existirão uma série de narrativas superestruturais a respeito de quem ela é, onde ela pode ir, como ela deve se portar, o que ela pode ter. Esse fenômeno é retroalimentativo, contínuo e impossível de não sobrecarregar uma pessoa. 

Eu comecei a entender que alguém como eu não conseguiria ter acesso a certos locais se não fosse a moda, quando a Annah trouxe de exemplo um ícone para a moda lolita e que é uma pessoa pobre e periférica....a Momoko de kamikaze girls.

Momoko mora no interior, em uma cidade pequena e afastada de Tóquio, com um pai ex-mafioso pé-de-chinelo que a criou sem a presença da mãe. O pai vende réplicas, conhecido para a gente como camelô, para sustentar a família e ela só consegue dinheiro para comprar seus vestidos ao mentir para o pai dela.


Assim como Momoko, eu e diversas outras pessoas do meio temos um orçamento apertado, precisando abrir mão de algo, como roupas para o dia a dia ou um computador novo, para investir em moda lolita. Mas onde entra a questão de ocupar espaços que geralmente pessoas pobres não ocupariam?

Quando lazer é mercadoria, ao pobre periférico não é dado o direito de se divertir, de possuir coisas além do necessário para sobrevivência. Qualquer coisa além disso é visto como "luxar" e esbanjar. Se você gastar 400 reais em um vestido, mesmo que ele seja sob medida e de boa qualidade, você não é visto como pobre “de verdade”, pois grande parte das pessoas aderiu a uma narrativa em que existe um “pobre ideal”, que não tem nada além do necessário para sobreviver.

Mas quando nós não aceitamos sermos colocados em caixinhas pré-definidas, também mostramos que pobres podem fazer algo além de sobreviver. Não só na questão de consumir bens mas também ao entender que as pessoas não esperam ver quem é da periferia usando roupas fofas, tomando cafés e comendo doces franceses em locais super elaborados pois, afinal, quem mora nesses lugares não se interessa por isso! Gosta apenas de baile com funk proibidão e está lutando para viver um dia após o outro!

A verdade é que você pode ser de periferia, gostar de funk e amar vestidos fofos e ser quem você quiser, não são coisas mutuamente excludentes e sua presença em qualquer um desses lugares não nega nem confirma narrativas condescendentes que são impostas sobre você.

No fim do dia, moda lolita é mais sobre jogar pachinko em uma birosca com sua amiga vida loca do que emular a imagem de duquesa vitoriana que toma chá com a realeza.

Ps: Gostaria de fazer um agradecimento especial a Annah,minha grande amiga,revisora de textos e que me ajudou muito na escrita e com diversas contribuições para esse texto.